Hamilton e política

Na última sexta o elenco de Hamilton: An American Musical se envolveu em uma “polêmica”. Ao final da apresentação, o ator Brandon Dixon chamou a atenção da plateia para a presença do o vice-presidente de Trump, Mike Pence, e lhe dirigiu o seguinte discurso:

“Vocês sabem que temos um convidado na plateia esta noite. Vice-presidente eleito Pence, eu vejo você indo embora mas espero que ouça apenas mais alguns momentos […] Nós estamos todos compartilhando uma história de amor. Nós temos uma mensagem para o senhor e esperamos que você nos ouça.

E eu encorajo a todos a pegarem seus iphones e twittar e postar porque esta mensagem precisa ser espalhada.

Vice presidente eleito, Pence, nós te damos boas-vindas e agradecemos verdadeiramente por se juntar a nós em Hamilton: An American Musical.

Sim, senhor, são os diversos americanos que estão alarmados e ansiosos de que a sua administração não vai nos proteger: nosso planeta, nossas crianças, nossos pais ou nos defender e assegurar nossos direitos inalienáveis. Mas nós verdadeiramente esperamos que este show tenha te inspirado a assegurar nossos valores americanos e trabalhar em nome de todos nós. Todos nós.

Muito obrigada por assistir a este espetáculo, esta maravilhosa história americana contada por um grupo diverso de homens e mulheres de diferentes cores, credos e orientações” (ignorem minha tradução)

Um trecho do vídeo foi postado no próprio perfil do musical, mostrando a plateia vaiando e o ator pedindo respeito e silêncio:

No mínimo muito intrigante e interessante. Surpreendente eu diria. Trump ficou bravo com o fato e disse que o elenco foi rude com Pence. Inclusive pediu desculpas. Coisa que não fez após as inúmeras agressões contra os grupos que ofendeu:

 

Em artigo para o NY Times, Ben  argumenta que o teatro deveria ser tudo menos seguro, existe para desafiar o nosso conforto. “É um lugar onde podem e devem ser iniciadas conversações de importância moral, filosófica e política”. Na visão do autor, o musical, por si só, já é revolucionário. O elenco negro e latino e a estória contada em Hip-Hop rompe com a história clássica. No entanto, o ato demonstrou a importância do exagero em sublinhar que seriam ignorados, de explicar o que o show tem a dizer. 

Ao final, “discordâncias e dissenso devem energizar a arte, não paralizar, e provocar respostas que correspondam”.

Em contexto brasileiro, percebo que as sátiras fazem mais sucesso e os políticos não costumam frequentar espetáculos. As sátiras são, de fato, ótimas. E se políticos têm medo de serem provocados ou falta a eles a apreciação, eu não sei. Ao meu ver, é raridade ou não acontecem momentos construtivos como este, no qual um discurso sério foi feito para que muitas vozes fossem ouvidas. O próprio Pence diz não ter se ofendido com as palavras do ator em entrevista:

Quando assisti ao musical Raia 30, por exemplo, a crítica ao governo o quadro não tinha nexo com o restante da peça. Em outro caso, na polêmica do musical de Chico Buarque, o ator improvisou o texto e, nas palavras da atriz Soraya Ravenle, provocou a plateia. As duas situações foram os exemplos mais atuais de que me lembrei.

Sinto falta de crítica sensata, de provocação lúcida e de plateia disposta a ouvir argumentos em nossas produções culturais. Por enquanto, só discurso de ódio de todos os lados.

Fica minha saudação ao Hamilton: An American Musical, que mais uma vez foi genial. Termino o post com a última novidade do musical, o mixtape das músicas em vozes como a de Sia, Usher e Kelly Clarkson: https://atlantic.lnk.to/UGI2G.

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